Onde ninguém está olhando – Amanda de Castro

Por Amanda de Castro

Onde ninguém está olhando Por que construir autoridade em territórios ignorados é a forma mais poderosa de criar relevância, propósito e legado. Existe uma tendência quase intuitiva quando se fala em carreira, empreendedorismo e crescimento profissional: a crença de que as melhores oportunidades estão concentradas nos lugares mais visíveis. Buscamos os segmentos em evidência, as áreas que ocupam manchetes, que recebem investimento, atenção e reconhecimento social.

Em certa medida, essa lógica faz sentido, afinal, é natural supor que o valor esteja exatamente onde todos estão olhando. A experiência, no entanto, costuma revelar uma realidade diferente. Ao longo dos anos, percebi que alguns dos segmentos mais relevantes da economia permanecem praticamente invisíveis para a maior parte da sociedade. Não porque sejam pequenos ou pouco importantes, mas porque exercem funções tão essenciais que só são notados quando algo dá errado. São atividades que operam silenciosamente, sustentando estruturas fundamentais da vida em sociedade, enquanto permanecem distantes dos holofotes.

O setor funerário é um desses exemplos. Quando mencionado, ainda costuma despertar estranhamento. Falamos com naturalidade sobre nascimento, educação, patrimônio, investimentos, aposentadoria, longevidade. Planejamos décadas a frente para quase todas as etapas da vida. Ainda assim, permanecemos desconfortáveis diante da única experiência verdadeiramente universal da condição humana. A morte continua sendo um tema que evitamos, não por ausência de importância, mas justamente pelo peso que carrega.

E essa dificuldade coletiva de abordar a finitude produz consequências que vão muito além do campo emocional. Ela influencia a forma como famílias se organizam, como empresas planejam seus serviços e a velocidade com que determinados segmentos se desenvolvem. Ignorar a morte jamais reduziu sua relevância, apenas tornou mais difícil compreender seus impactos sociais, econômicos e jurídicos. Poucas pessoas sabem, por exemplo, que o segmento funerário brasileiro movimenta aproximadamente R$ 13 bilhões por ano, segundo estudos amplamente divulgados pelo próprio setor.


Trata-se de uma atividade robusta, altamente regulada, composta por milhares de empresas e responsável por uma função indispensável à sociedade, e que vem passando por transformações profundas, impulsionadas pela tecnologia, pela profissionalização da gestão, pelas mudanças demográficas e por um consumidor cada vez mais atento à qualidade da experiência e do atendimento. Ainda assim, permanece distante das conversas empresariais mais frequentes.

E foi exatamente aí que encontrei uma das lições mais valiosas da minha trajetória: os segmentos mais promissores nem sempre são os mais disputados. Quando a coragem se torna estratégia Em um cenário no qual tantas pessoas buscam diferenciação percorrendo exatamente os mesmos caminhos, existe uma oportunidade frequentemente negligenciada: desenvolver profundidade em territórios que ainda carecem de especialistas, pesquisas e referências consolidadas.

A pandemia tornou essa realidade particularmente evidente. Durante meses, o mundo foi confrontado com uma vulnerabilidade que normalmente permanece distante do cotidiano. De repente, a morte deixou de ocupar um espaço periférico e passou a integrar o noticiário, os lares, as preocupações familiares, as decisões empresariais. Não que a pandemia tenha aumentado a importância da atividade funerária, essa importância sempre existiu.

O que mudou foi a percepção coletiva sobre temas que, até então, pareciam desconfortáveis demais para serem discutidos. Questões relacionadas a planejamento, proteção familiar, sucessão patrimonial e prevenção passaram a ocupar um espaço diferente no imaginário social. Ao observar esse movimento, compreendi algo que ultrapassa qualquer segmento específico: muitas vezes, aquilo que a sociedade escolhe não enxergar é justamente o que sustenta algumas de suas estruturas mais fundamentais. Essa constatação transformou minha forma de compreender os negócios e, consequentemente, minha própria carreira. A faculdade de Direito me ensinou a interpretar normas, construir argumentos e solucionar conflitos.

Foi o empreendedorismo, no entanto, que me ensinou a observar segmentos, identificar oportunidades e compreender que autoridade não é algo concedido, é algo construído. Como acontece em grande parte dos cursos jurídicos brasileiros, pouco se fala sobre gestão, posicionamento ou construção de marca profissional. Aprendemos a advogar, mas raramente aprendemos a empreender. Com o tempo, entendi que conhecimento e visibilidade não são conceitos concorrentes, são complementares.

O mercado dificilmente reconhece aquilo que não consegue enxergar. E, embora a qualidade do trabalho continue sendo o alicerce de qualquer trajetória consistente, ela precisa ser acompanhada da capacidade de comunicar valor, construir relacionamentos e ocupar espaços de relevância. Como muitas mulheres que construíram carreira em ambientes historicamente ocupados por homens, aprendi cedo que competência é indispensável, mas raramente fala sozinha. A excelência técnica abre portas. O posicionamento é o que permite permanecer nos espaços de decisão. O encontro com um território vazio Foi nesse cruzamento entre técnica e visão de negócios que encontrei uma oportunidade.



Ou, talvez, tenha sido uma oportunidade que me encontrou. Poucas pessoas imaginam construir uma carreira em torno de um tema que a sociedade prefere evitar. Eu também não imaginava. Ainda assim, foi nesse encontro improvável que encontrei propósito. O que começou como atuação profissional transformou-se em campo de estudo, depois em linha de pesquisa acadêmica e, com o tempo, em missão. Ao me aproximar do setor funerário, descobri não apenas um segmento economicamente relevante e juridicamente complexo, mas um universo que reunia questões humanas, sociais, empresariais e regulatórias com uma intensidade raramente encontrada em outros setores. Mais do que um segmento econômico, encontrei um tema que atravessa relações humanas, cultura, gestão, planejamento e dignidade.

Na época, essa escolha parecia improvável para muita gente. Para mim, fazia absoluto sentido: havia um setor relevante, economicamente expressivo, juridicamente complexo e socialmente indispensável, mas que ainda carecia de produção acadêmica, especialização e visibilidade. Mais do que um nicho, enxerguei um espaço fértil para estudo, contribuição e desenvolvimento. Profundidade sem visibilidade não constrói nada O conhecimento técnico foi, naturalmente, indispensável nessa construção. Mas, em determinado momento, percebi que estudar não bastava. Era necessário compartilhar.

A produção acadêmica trouxe profundidade. O mestrado consolidou uma linha de pesquisa dedicada ao segmento. A prática profissional permitiu compreender suas particularidades e desafios. Faltava, no entanto, criar pontes entre esse conhecimento e as pessoas que poderiam se beneficiar dele. Foi nesse contexto que a produção de conteúdo passou a fazer parte da minha trajetória. A criação de um site especializado, a publicação constante de artigos e reflexões, a presença ativa nos ambientes digitais, nada disso nasceu como estratégia de marketing.

Nasceu da convicção de que segmentos se desenvolvem quando o conhecimento circula. Com o tempo, percebi que o ambiente digital tem uma capacidade extraordinária de encurtar distâncias. Por meio dele, foi possível conectar-me a empresários, gestores, pesquisadores e lideranças de diferentes regiões do país, participar de discussões estratégicas e ocupar espaços que dificilmente seriam alcançados pelos caminhos tradicionais. Entendi, então, que a construção de autoridade repousa sobre dois pilares inseparáveis: profundidade e visibilidade.

A primeira nasce do estudo, da experiência e da consistência. A segunda nasce da disposição de compartilhar conhecimento e participar ativamente das conversas que movem o setor. Foi a combinação desses dois elementos que me permitiu transformar uma atuação especializada em uma plataforma de conexão com alguns dos principais players do segmento funerário brasileiro, participando de eventos nacionais, palestras, projetos estratégicos e discussões que seguem contribuindo para a evolução do setor. A verdadeira lição não é sobre o setor funerário Hoje, olhando para essa trajetória, percebo que a principal lição não está relacionada ao Direito Funerário em si.

Está relacionada à coragem de ocupar espaços que ainda não possuem muitas referências. Existe uma pressão silenciosa para que profissionais e empreendedoras escolham caminhos já validados, segmentos considerados mais atrativos, áreas com maior reconhecimento social. Mas a história dos negócios mostra que algumas das maiores oportunidades surgem exatamente nos territórios negligenciados, nos problemas que poucos querem resolver, nos setores que ainda aguardam alguém disposto a compreendê-los a fundo. Os espaços ignorados costumam oferecer algo raro: a possibilidade de construir referências. Foi essa percepção que me levou, anos atrás, a assumir um posicionamento que, à época, parecia ousado.

Em um ambiente jurídico tradicional, escolhi apresentar-me de forma clara, direta e intencional como especialista em Direito Funerário. Não porque fosse o caminho mais simples, mas porque entendi que diferenciação raramente nasce da tentativa de fazer melhor aquilo que todos já fazem. Quase sempre, ela nasce da coragem de fazer com profundidade aquilo que poucos escolheram fazer. Trabalhe até que seja impossível não lembrar do seu nome Há alguns anos ouvi uma frase que permanece comigo desde então: trabalhe até que seja impossível falar sobre o seu nicho sem mencionar o seu nome.

Na primeira vez em que a ouvi, interpretei como uma meta de reconhecimento profissional. Hoje, a experiência me permite enxergá-la de outra forma, não como uma frase sobre notoriedade ou protagonismo, mas como um convite à construção de legado. Dedicar anos ao estudo, à pesquisa e ao desenvolvimento de um segmento significa, em última análise, contribuir para que ele se torne mais maduro, mais profissional e mais respeitado do que era quando chegamos.

Trabalho todos os dias para que o Direito Funerário seja mais estudado, mais respeitado e mais profissionalizado do que era quando comecei essa jornada. E se um dia for impossível falar sobre esse segmento sem que meu nome seja lembrado, espero que isso aconteça não pela posição que ocupei, mas pela transformação que ajudei a construir. Porque, no fim, os territórios mais valiosos nem sempre são aqueles que recebem mais atenção. Frequentemente, são aqueles que aguardam alguém disposto a enxergar o que a maioria ainda não percebeu, e, uma vez encontrados, exigem a coragem de permanecer tempo suficiente para se tornar parte da sua história


Executiva com trajetória em estratégia, governança e desenvolvimento do turismo. Gerente do Conselho Empresarial de Turismo e Hospitalidade da CNC, lidera iniciativas que conectam setor público e privado, promovendo inovação, competitividade e políticas para o turismo brasileiro. @alinellpss @sistemacnc

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